segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Olhar com os Olhos de Jesus: Algumas Ideias de Metodologia Pastoral

Márcio L'Oliveira


“Eu sou o Bom Pastor, eu conheço as minhas ovelhas, e as minhas ovelhas me conhecem, como o meu Pai me conhece e eu conheço o meu Pai; e eu me despojo da vida pelas ovelhas. Eu tenho outras ovelhas que não são desse redil, e também a estas é preciso que eu conduza; elas ouvirão a minha voz e haverá um só rebanho e um só pastor” (Jo 10,14-16).


Jesus é o Bom Pastor, aquele que conhece, cuida, conduz e dá a vida por suas ovelhas. Mas antes de tudo ele “CONHECE”, sabe quem está pastoreando, ou seja, conhece os membros de sua comunidade e até aqueles que não são de sua comunidade, “as ovelhas que estão fora de seu redil”, mas que necessitam de sua presença, cuidado, amizade. Jesus se encarnou em uma realidade particular, na Palestina de seu tempo[1]; ele também se encarna em nossa realidade e encarnado-se ele assume nossas dores e alegrias, nos conhece e nos faz um convite a conhecermos o chão onde caminhamos, isso porque, “as alegrias e esperanças, as tristezas e angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos os que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo”[2]. Olhar é sempre o primeiro passo par qualquer coisa na vida, sobretudo para quem quer começar um caminho sério e sincero; o “VER” é também o primeiro passo do método VER-JULGAR-AGIR da Igreja do Brasil e da América Latina; queremos começar por aqui.


Como discípulos e discípulas de Jesus, missionários e missionárias da Igreja, situados num mundo, num país, numa comunidade, devemos, olhando com os “óculos de Jesus”, o Supremo Pastor, nos perguntar: Onde vivemos? Como é a realidade na qual estamos inseridos? Quais são os questionamentos que nos fazem esta realidade? Que Deus está nos dizendo a partir dela? Quais os gritos de Deus que ecoam nesta realidade? Quais são as principais características da sociedade em que vivo (em seus aspectos social, político, econômico, cultural)? Que influência tem na nossa vida?[3]. Para, assim, tentarmos responder, mas também, aprendermos ou educarmo-nos a olhar o meio em que vivemos com os olhos de Deus. Olharemos de forma geral a sociedade para depois, tentarmos desenhar os desafios que enfrentamos em nossa comunidade local.

Olhando nossa sociedade


Hoje se faz muito difícil estabelecer um olhar sobre a sociedade, seja no âmbito mundial ou brasileiro, por conta das constantes e rápidas mudanças que acontecem no mundo inteiro[4]. Contudo, é fundamental estabelecer algumas características para nos situamos em que mundo estamos, nas quais percebemos gritos explícitos do Deus sofredor, que ver a dor, conhece a aflição de seu povo e desce para libertá-lo (cf. Ex 3,7-8).



1) Sociedade globalizada: crescimento intenso das comunicações, entre as pessoas empresas e países. Cotidianamente nossas casas e vidas são invadidas por fatos, acontecimentos, bons ou ruins do mundo inteiro que terminam por influenciar e determinar a nossa vida, isso se chama “globalização”. A sensação de que tudo está perto, e realmente está. Pessoas migram de um país para o outro e está cada vez mais fácil conhecer pessoas ou coisas de outros países e culturas. Isso, inicialmente, parece bom, a questão é quem comanda e quem ganham mais com isso tudo?[5]


2) Domínio econômico: os bens materiais por vezes se tornam valor absoluto. Há uma impressão geral que todos podem ter tudo, comprar tudo, é o que chamamos de “consumismo”.


3) Individualismo: difusão de uma forma de vida egoísta e anti-comunitária, cada vez mais se vive só pra si[6].
            · Crescimento desordenado das cidades: as pessoas que moravam na “roça” estão concentrando-se na cidade com condições de vida, muitas vezes, desumanas sem ter o básico para viver[7]. As condições econômicas produzem “levas” de migrantes que saem de suas cidades “interioranas” e se estabelecem nas periferias das cidades[8].
            · Desigualdades sociais: é sempre crescente o abismo existente entre ricos e pobres, há poucos que têm muito e muitos que têm apenas o básico, menos que isso ou quase nada para viverem bem[9].
            · Perda do sentido ético-moral: há uma mudança quase que uma mudança total dos valores que há orientam. Valores como solidariedade, fraternidade, justiça, amor são substituídos pela “Lei do Dinheiro”.
            · Explosão dos meios de comunicação: estes trazem inúmeros benefícios para todos nós, mas exercem uma influência negativa muito grande na formação da mentalidade do povo.
            · Migrações religiosas e novas igrejas: cada vez se ouve falar de práticas religiosas pessoais sem compromisso com uma comunidade. Também é muito presente o trânsito de uma igreja para outra e a proliferação de igrejas neo-pentecostais, essas igrejas novas e pequenas ou maiores que surgem em nossos bairros.

            Mas para não ficarmos só nos pontos negativos ou mais desafiadores, que são aqueles mais próximo aos nossos olhos, “os clamores que gritam aos céus”, como nos diz Medellin , podemos ainda dizer da nossa riqueza e beleza, sobretudo em relação ao nosso povo:
            Nosso povo é extremamente acolhedor, partilha com facilidade, vive a caridade, compadece-se dos sofrimentos dos outros; valoriza a amizade, ainda preza pela família com todas as dificuldades. Consegue se organizar e lutar por causas como luta contra a discriminação, promoção dos direitos das mulheres, preservação do meio ambiente, busca de justiça social. Nosso povo é jovem, e onde tem oportunidade, possui capacidade e criatividade de inovar e reivindicar vida diferente[10].

Olhando nosso chão

            E agora? E nosso chão, o chão de nossas comunidades? Claro que muitas dessas angústias e alegrias estão presentes por aqui. Lancemos, pois, o olhar de Jesus, o Pastor Cuidadoso, que olha para sua comunidade sem perder de vista o que está ao se redor. Voltemos a algumas  perguntas do início de  nossas reflexão:
            1. Onde vivemos?
            2. Quais as caracteristicas da realidade na qual estamos inseridos?
            3. Quais são os questionamentos que me fazem esta realidade?
            4. Que Deus está nos dizendo a partir dela? Quais os “gritos de Deus” que ecoam dessa realidade?
            5. Que influência têm na nossa vida?


SIGLAS

GS         Gaudium et Spes (As Alegrias e as Esperanças). Constituição Pastoral do Concílio Vaticano II.
P           Conclusões da Conferência de Puebla. Conselho Episcopal Latino-Americano, CELAM.
DGAE     Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil. Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, CNBB.



[1]  cf. Dinâmica de Análise da Realidade, em Revista Ecoando 13 (IV) 23.
[2]  GS 1.
[3]  cf. CELAM. Projeto de Vida: Caminho Vocacional da Pastoral da Juventude Latino-Americana. São Paulo: CCJ, 2003, p. 123.
[4]  cf. GS 4.
[5]  cf. DGAE 47.
[6]  cf. ARQUIDIOCESE DE FEIRA DE SANTANA. Plano de Pastoral. Paulo Afonso: Fonte Viva, 2002, p. 6.
[7]  cf. DGAE 50.
[8]  cf. ARQUIDIOCESE DE FEIRA DE SANTANA. Plano de Pastoral. Paulo Afonso: Fonte Viva, 2002, p. 7.
[9]  Id., Ibid. p. 6.
[10]  cf. P 17-21

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